Luísa | Fardo de Ternura

Luísa

set 24, 2019 | Relatos de Parto | 0 Comentários

Data do parto: 03/09/2018
Horário do nascimento: 14:17h
Equipe médica: Dr. Philippe Godefroy (obstetra), Dra. Raquel (médica auxiliar) e Dr. Guilherme (pediatra)
Doula: Camille Fonteneles (Fardo de ternura)
Tipo de parto: Natural

Relato do parto do Rafael

Antes de iniciar o relato do parto do Rafael, preciso começar contando como tudo começou. Eu sempre desejei um parto normal.

Sempre acreditei na capacidade fisiológica da mulher em parir e sempre achava que esse seria um caminho de uma certa forma “lógico” para mim, tendo em vista que sempre fui uma pessoa muito saudável, atleta por muitos anos, que ocuparam inclusive a minha adolescência e demandaram de mim muita dedicação durante todo esse período. Nunca tive nenhuma doença que pudesse questionar a minha possibilidade de ter um parto pela via vaginal. Por outro lado, sempre tive muita confiança na minha antiga médica ginecologista que me acompanhava desde meus 16 anos de idade.

A ela eu sempre confiei a minha saúde feminina. Quando engravidei do Luís Henrique (gravidez extremamente desejada, assim como as duas seguintes), comecei o meu pré-natal com ela. Uma pessoa muito carinhosa diga-se de passagem, apesar de ter uma agenda que me deixava agoniada de tanto esperar. Não tinha contato direto com ela e mal conseguia falar no telefone do consultório. Os dias de consulta eram mega cansativos, pois eu passava o dia inteiro aguardando para ser atendida, ainda que a consulta tivesse horário marcado. No entanto, não sei por qual motivo sempre achei que aquilo fosse algo “normal”. Assim, sempre fui levando.

 

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 1

Anotava todas as minhas dúvidas para perguntar durante a consulta, porque depois se precisasse falar algo que tivesse ficado esquecido seria muito difícil. Não teria abertura. Assim foi sobre o assunto parto. Estava lá anotado na minha listinha perguntar a ela se ela realizava parto normal.
Lembro muito claramente sua resposta: “Faço sim, mas normal normal mesmo. E acho seguro aguardar até 40 semanas de gestação.” E a verdade é que ela não se prolongou no assunto e nas consultas seguintes percebia que não tinha muita abertura para falar sobre o assunto. Mas qual foi o meu entendimento por aquela resposta simples e curta. Sendo bem
honesta entendi que ela fazia o parto normal “tradicional”, não fazia partos em água ou domiciliares, ou qualquer outra forma “diferente”. E sobre o tempo de gestação, por pura ignorância minha tinha certeza absoluta que entraria em trabalho de parto antes desse período, pois o que a gente mais escuta por aí são partos com 38 ou 39 semanas. 40 seria até diferente! Na sala de espera me sentia uma alienígena, tendo em vista que todas as gestantes que também aguardavam para serem consultadas queriam uma cesariana e eu era a única que dizia que teria um parto normal, mas eu acreditava que isso era uma opção da mulher, mas hoje acredito que existia ali um “falso” consentimento.

Pois bem. A gestação foi avançando e o terceiro trimestre chegou. Eu pouco (ou nada) pesquisei sobre o parto, pois acreditava que a médica detinha de todas as informações e me proporcionaria o que havia de mais atual e adequado. Na minha cabeça o parto era da médica! Que grande
erro o meu! Aprendi no último parto que o parto é da gestante! Como disse o Dr. Philippe Godefroy por diversas vezes para mim: “Não entregue o seu parto nas mãos de ninguém!”. Bem, voltando ao parto do Luís Henrique, o meu “desespero” começou quando completei 39 semanas de

 

 

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 2

gestação e não tinha nenhum sinal do Luís Henrique. Comecei a me sentir
“contra a parede”, pois pelo combinado ele tinha 1 semana para nascer.
Intensifiquei as atividades físicas. Com aproximadamente 39 semanas e 4
dias perdi o tampão mucoso, o que indicaria que nos próximos dias estaria
entrando em trabalho de parto. 2 dias depois me senti um pouco enjoada e
a Dra. achou importante que eu fosse até uma emergência. Seguindo o
protocolo de atendimento do Hospital a médica fez um exame de toque e
percebeu que o meu colo estava bem fino e que provavelmente eu entraria
em trabalho de parto nos dias seguintes. Senti que a Dra. estava ficando
desconfortável, preocupada. No domingo, dia 13/10/2013, completei 40
semanas. A médica combinou comigo que eu fosse internada no dia
seguinte para a cesariana. Não estava acreditando que não teria um parto
normal, mas senti uma pressão muito forte de que se eu não fizesse isso
poderia estar colocando o meu filho em risco e isso eu não assumiria de
forma alguma. Neste domingo a tarde, decidi descer na piscina do play do
prédio e nadei 1.000 metros com a intenção de ajudar. Eu já sentia leves
contrações, mas todas ainda sem dor. Enfim, não deu certo. No dia
14/10/2013 me internei pela manhã cedo no Hospital Santa Martha para
o procedimento de cesariana. Lembro perfeitamente que eu estava
aguardando a médica no quarto, pois ela estava fazendo uma outra
cesariana e fiquei aguardando a minha vez. Quando a médica entrou no
quarto, lembro-me dela falando que tinha passado na recepção para ter
certeza que eu tinha me internado, pois estava muito preocupada comigo e
já estava há três noites “dormindo comigo” de preocupação. Solicitei a ela
um exame de toque. A minha inocência pensava: “Poxa quem sabe estou
com dilatação, mas ainda não estou sentindo as dores do parto? Quem
sabe ela topa esperar mais um pouco?” Mas para a minha frustração o

 

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 3

colo ainda estava fechado e ela falou: “Vamos! Vamos, Luiza! Colo
fechadinho.” Me lembro que uma vez, durante as consultas de pré-natal,
ela me falou assim: “Existem muitas histórias tristes de parto normal.” Essa
frase também me marcou, pois eu mais uma vez estaria assumindo uma
grande responsabilidade em “forçar” um parto normal. Hoje eu tenho
clareza de que história triste de parto normal são daqueles partos
conduzidos por obstetras inexperientes em parto normal e que a qualquer
custo tentam acelerar a natureza nesse processo, através de uso de
ocitocina desnecessária, manobras desnecessárias e etc. Um bom obstetra é
muito mais um observador do que propriamente um interventor. Mas uma
pena só descobrir isso depois.
Bom, fui conduzida a cesariana e a primeira dificuldade já veio no
início. A anestesia não estava fazendo efeito em mim e foram necessárias 3
(três) aplicações, sendo que em nenhuma delas o meu marido pode estar
presente ao meu lado. Fiquei um pouco nervosa, mas fui acalmada
dizendo que isso apesar de não ser comum, poderia acontecer. Em
nenhum momento os médicos me trataram mal, muito pelo contrário,
sempre atenciosos e carinhosos. Na terceira aplicação a cirurgia começou,
logo o Luís Henrique nasceu e logo a sensação da anestesia subiu a minha
cabeça. Veio um enjoo muito forte e uma sensação de desmaio, mas o
médico agiu rapidamente com alguma medicação que me deu algum
conforto para ver o meu filho que nasceu muito bem fazendo xixi pro alto
e tirar umas fotos com ele. Foram pouquíssimos minutos. Logo entrou uma
medicação para eu dormir e o Luís Henrique foi levado com o pediatra e o
pai. Lembro ainda que a médica falou assim: “Viu, Luiza! Nasceu com
circular de cordão”. Foi uma forma dela falar: estávamos corretos em ter
feito a cesariana. Tudo para me convencer de que o caminho era aquele

 

 

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 4

mesmo. Assim, não tivemos hora de ouro, amamentação na primeira hora
de vida, nada disso. Ao contrário, fui acordar aproximadamente 4 horas
depois ainda com as pernas bastante sem sensibilidade. Luís Henrique
chegou pra mim, mamou muito bem e, em tese, teria sido um parto de
sucesso. Pela nossa ignorância, todos os procedimentos foram normais de
um parto e todo aquele protocolo tradicional do bebê de aspiração,
clampeamento precoce de cordão, nitrato de prata, berçário separado da
mãe por horas, etc fossem normais. Graças a Deus consegui amamentar
muito bem o Luís Henrique. Foram 6 meses de aleitamento materno
exclusivo e continuado até 1 ano e 2 meses. Eu já estava grávida do
Eduardo, meu segundo filho, a produção foi caindo e, também por
ignorância minha, ofertei uma mamadeira de vitamina de banana com
NAN quando ele completou 1 ano e ele amou. Trocou rapidamente o
peito com pouco leite para a mamadeira com vitamina. Nossa! Foi o caos!
Luís Henrique desenvolveu uma alergia a proteína do leite de vaca severa
que nem vou entrar nos detalhes, pois senão esse relato vai virar um livro.
Mas em resumo hoje posso dizer que tenho absoluta certeza que laaaaá na
maternidade foi oferecido a ele fórmula, que já gerou uma primeira
sensibilização e que mais tarde veio a desencadear a doença, que por sinal
lutamos contra ela até hoje. Mais um ponto negativo para aquele então
“parto de sucesso”.
Aí veio a gestação do Eduardo. Quando o Luís Henrique estava com
10 meses de vida engravidei do Eduardo. Pra falar a verdade nem tenho
muita coisa pra falar sobre a expectativa de parto normal para esta
gestação, pois logo na primeira consulta de pré-natal, com a mesma
médica, fui informada que eu não poderia tentar parto normal, pois tinha
uma cesariana recente. Ponto. Fim.

 

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 5

Mais uma vez acreditei e confiei de que isso era uma verdade
absoluta. Com relação ao tempo de gestação foi ainda pior, pois a cirurgia
foi marcada quando o Eduardo tinha exatas 39 semanas de gestação, já
que a médica iria viajar na semana seguinte. Oh God!
O parto do Eduardo foi um pouco mais tranquilo que o parto do Luís
Henrique. Apenas uma anestesia foi necessária e a pediatra (diferente da
do parto do Luís Henrique) colocou Dudu no meu colo para mamar assim
que ele nasceu. Mas posso dizer que não passou de 3 minutos. Digamos
que foi apenas um teste. Segundo Luís, meu marido, Eduardo nasceu
super engasgado, ficou roxinho e precisou de algumas manobras para que
ele pudesse respirar. Eduardo também sofreu muitos procedimentos
desnecessários e na nossa alta eu ainda ouvi da pediatra que eu poderia
não ter leite suficiente e que se isso acontecesse era para eu oferecer a
fórmula blá blá blá, que se eu precisasse fazer as unhas que o pai poderia
oferecer água de coco. Oh céus! Graças a Deus neste momento eu já
estava mais criteriosa e nessas aí eu não caí não. Eduardo foi menino de
livro. Aleitamento materno exclusivo por 6 meses, continuado por mais de
2 anos (hoje já temos 3 anos e 4 meses de amamentação e confesso já estar
tentando um desmame gentil para me dedicar exclusivamente ao Rafael,
mas ele ainda está sentindo a chegada do novo irmãozinho então vou dar
um tempo pra ele), nunca usou bicos, chupetas e nem mamadeiras.
Bem pouco tempo depois do nascimento do Eduardo, não me lembro
exatamente por qual motivo, quando e como isso começou eu comecei a
me informar mais sobre partos e começou a bater uma grande frustração
dos meus partos anteriores, como se tivessem “roubado” os meus dois
partos anteriores. Lembrando que eu sou super a favor de uma cesariana
eletiva consentida, ou seja, aquela que a mulher sabe dos benefícios do

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 6

parto normal, mas ainda assim escolhe a via cesárea. Essa mulher tem
todo o meu respeito. Mas, definitivamente esse não foi o meu caso.
Começou a me bater um vazio sobre esse assunto. Lembro que por
um tempo cheguei a ficar bastante triste com isso, mas precisava superar já
que não tinha como voltar atrás e também porque não queria relacionar o
nascimento dos meus filhos como um evento ruim. À época dos
nascimentos, como eu não tinha entendimento do funcionamento do
sistema de cesarianas no Brasil, tinham sido momentos muito felizes pra
mim e que eu guardava com muito amor no meu coração e na minha
memória.
Entretanto, não posso negar o sentimento de frustração. Não posso
negar o vazio que ficou. Como eu gostaria que tivesse sido diferente. Eu
sempre quis ter 3 filhos (ou 4), mas a sensação que eu tenho é que na
medida que o tempo passava e que eu me empoderava da vontade de ter
um parto normal, eu tinha mais vontade ainda de engravidar do terceiro.
Eu definitivamente não poderia passar dessa existência sem a experiência
transformadora de parir um filho. Mas o momento era confuso, estávamos
de mudança, apertados financeiramente, cansados com os dois meninos
em idades tão próximas que optamos por esperar mais um pouco.
Eu fui aos poucos me sentindo preparada e quando o Eduardo estava
com aproximadamente 2 anos e 5 meses começamos a pensar no terceiro
filho. No entanto, meu ciclo menstrual ainda não tinha voltado, por conta
da amamentação prolongada. Com o Luís Henrique chegou a voltar aos
10 meses (quando engravidei), mas com o Eduardo ainda não. Já nesta
época, certa de que não procuraria mais a minha médica de longos anos,
busquei uma médica indicada por uma amiga que fazia partos normais.
Mas confesso que estava absolutamente insegura sobre o assunto. A

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 7

consulta foi ótima! A médica muito carinhosa disse que era possível sim,
que já existiam muitos casos de parto normal depois de uma cesariana e
que agora estava começando a tornar-se mais comum um parto normal
após duas cesarianas. Posso falar a mais sincera verdade? No fundo no
fundo eu não estava confiante de que seria possível, tinha um sentimento
de que se eu pelo menos conseguisse entrar em trabalho de parto, se eu
sentisse qualquer coisa já seria incrível pra mim e que entrar em uma
cesariana seria um caminho bastante provável para o meu caso. Enfim,
realizei os exames solicitados pela médica. A ultrassonografia indicou
muitos folículos, característicos de uma anovulação crônica por conta da
amamentação, conforme orientação do médico ultrassonografista. Tinha
muita preocupação com cistos ovarianos, pois já tive um episódio de cisto
rompido e, em um outro momento, já havia realizado uma
videolaparoscopia para retirada de um cisto ovariano. Enfim, fui pra casa
até um pouco chateada imaginando que não conseguiria engravidar se não
desmamasse o Eduardo. Definitivamente ele não estava pronto pra isso e
seria muito respeitado por mim.
Os dias passaram e eu deveria levar o resultado na médica, mas por
conta de uma importante reunião de trabalho precisei remarcar o meu
retorno. Uns dois dias antes da consulta de retorno (remarcada), comecei a
sentir umas dores no útero quando passava em buracos nas ruas no meu
caminho de bicicleta para o trabalho, mas como eu ia na médica aguardei
a consulta para contar a ela. Ela me examinou e disse que eu não tinha
nada e que mais parecia dor de ovulação! Ual! Como assim? Havia
acabado de receber a notícia de que provavelmente não estaria ovulando!
Fiz as minhas continhas na hora e falei pra médica: “Opa! Então estou
grávida!” Pronto. Nada mais tirava da minha cabeça de que eu estaria

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 8

grávida. Contei ao Luís, meu marido, que pediu que eu esperasse com
calma. Como não tinha data de última menstruação e estava
extremamente ansiosa fiz dois testes de urina que deram negativos, mas
ainda assim tinha certeza que estava grávida. No terceiro veio a
confirmação! E descobri no dia do aniversário do Luís! Um presentão e
tanto!
Bom, e agora? Qual obstetra? Sabia que a anterior eu não iria mais.
Gostei bastante da nova, mas não sei porque motivo eu achava que
precisava de um obstetra “meio termo”. Como assim? Estava perdidinha
mesmo. Na minha cabeça eu queria tentar parto normal, mas no fundo no
fundo eu achava que não seria possível, então precisava de uma médica
“mais experiente”, pois caso desse algum problema precisaria correr para a
cesariana. O fato é que eu me considerava uma gestante de risco para
parto normal.
Foi aí que descobri uma nova obstetra que pela sua fama fazia parto
normal e que esperava até 41 semanas de gestação e que tinha uma longa
trajetória na carreira. Ela foi bem recomendada. Opa! Era o “meio
termo”que eu precisava. Gente, que loucura é essa de “meio termo”?! Eu
não sabia de nada mesmo. Ou faz parto normal baseado no respeito e nas
evidências científicas ou não faz. Simples assim.
Já na primeira consulta conversei com ela sobre o meu sonho de parto
normal. Ela me disse que seria possível tentar sim, mas que se precisasse
fazer alguma intervenção comigo não seria possível. Confirmou que
aguardava até 41 semanas. Perguntei sobre os valores do parto e ela disse
que não teria como responder, pois precisava consultar a equipe. Ela foi
muito atenciosa e carinhosa.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 9

Saí de lá com a sensação de ter avançado. Finalmente alguém tentaria
um parto normal comigo. E esperar até 41 semanas talvez fosse mais que
suficiente! Quanto as intervenções, eu não queria intervenção mesmo,
então estava tudo certo. Nas consultas seguintes, assim como na minha
primeira médica, eu não me sentia à vontade para conversar sobre o parto.
E ainda perguntei mais de uma vez sobre os valores do parto, pois a gente
precisava se programar para isso, mas ela nunca tinha a resposta para me
dar. Para piorar a situação, encontrei uma amiga que teve um parto
normal com ela e que disse que não teria novamente, pois ela fez
episiotomia sem consultá-la. Oh céus! Minha saga continuava. Quando
estava com 29 semanas de gestação, chamei uma doula na minha casa.
Pensei que tendo uma doula ao meu lado eu estaria mais protegida. Não
precisaria sair correndo para o hospital em qualquer sinal de trabalho de
parto e me sentiria menos pressionada para uma intervenção desnecessária
e até mesmo uma cesariana. Ela foi muito atenciosa e com muita ética me
deu alguns toques sutis de que eu não estava no caminho certo para
alcançar o meu tão sonhado parto normal. Me sugeriu que pesquisasse,
que assistisse vídeos no youtube e que me certificasse de que era totalmente
possível um parto normal depois de duas cesarianas. Minha cabeça pirou!
Assim que a consulta terminou precisei correr, pois tinha uma
consulta domiciliar para atendimento de nutrição para uma família que
estava bastante preocupada com a alimentação do filho de 10 meses. Foi
uma deliciosa consulta, a família ficou mais calma e, ao final, na hora de ir
embora, conversamos sobre parto. Não sei por qual motivo o assunto
iniciou. Provavelmente eu devo ter comentado a minha angústia sobre o
parto, já que tinha acabado de sair da consulta com a doula.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 10

Que sorte a minha ter sido chamada por essa família! Digamos que foi
coisa do destino mesmo! A Natália me contou que teve um lindo parto
normal humanizado e me indicou, com muita educação, o Dr. Philippe
Godefroy, um anjo que apareceu aos 48 do segundo tempo da minha
última gestação.
Era uma sexta-feira. Pirei! Passei a noite de sexta e o sábado inteirinho
pesquisando sobre partos, assistindo vídeos de partos normais, e chorando,
chorando, chorando, me emocionando. Luis não estava entendendo o que
estava acontecendo comigo de uma hora para a outra. Sei que no domingo
a tarde tomei coragem e resolvi mandar uma mensagem para o Dr.
Philippe, que segue abaixo na íntegra:
“Olá Dr. Philippe, boa tarde! Desculpa a msg no domingo. Pode me
responder com bastante calma. Não há urgência. Meu nome é Luiza, sou
mãe de dois meninos (4 anos e meio e 3 anos) e estou com 29 semanas de
gestação do meu terceiro menino. Tenho um sonho: ter um parto normal.
Tive duas cesarianas anteriores absolutamente desnecessárias. Na terceira
gestação mudei de obstetra, mas não estou totalmente confiante da real
tentativa de parto normal. Já conversamos um pouco, mas estou sentindo
que não está algo muito claro. Me indicaram você! Sei que mudar de
obstetra agora é complicado. Confesso que me sinto até envergonhada.
Mas estou com isso na cabeça. É a minha última chance. Não sou sua
paciente (talvez ainda), mas gostaria de saber se devo acreditar que é
realmente possível um parto normal depois de duas cesarianas. Se sim, vou
lutar atrás do meu sonho. Minha atual médica diz que podemos tentar,
mas não sei até que ponto ela está entendendo a importância que estou
dando ao meu último parto. Desculpa a mensagem longa. Estou abrindo o
meu coração. Muito obrigada! E desculpa o incômodo! Abraços, Luiza.”

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 11

A resposta do Philippe (não vou mais colocar Dr. na frente, pois à
época ele me pediu que o parasse de chamar de Doutor) veio de imediato,
veio por áudio e eu nunca vou me esquecer do início do áudio:
“Luiza, não só é possível como é REAL você ter um parto normal
depois de duas cesarianas. O principal motivador você já tem: o seu
desejo!” E ainda me passou o contato de uma paciente que teve um lindo
parto normal com ele após duas cesarianas anteriores e uma cirurgia
bariátrica. Me pediu que entrasse em contato com ela para conversarmos.
Entrei em contato e ela só me deixou ainda mais animada! Ai meu Deus!
Será que eu estava encontrando o meu caminho?
Só então resolvi conversar com o Luís e explicar que estava pensando
em mudar de obstetra mais uma vez. Para a minha surpresa ele não foi
contra, apenas tentou entender o que estava acontecendo. Sendo bem
sincera, para o Luís, cabeça de engenheiro, parto de segurança seria
repetir a cesariana com a minha primeira médica, tendo em vista que, em
tese, havia ficado tudo bem.
A doula que tinha vindo a minha casa havia me sugerido assistir ao
documentário “O Renascimento do Parto”. Eu fiz questão de assistir com
o Luís. Dois dias depois do meu primeiro contato com o Philippe
conseguimos uma brecha em casa com os meninos e assistimos juntos! Ual!
Foi um divisor de águas! Nos emocionamos muito! Eu que não tinha visto
nem o trailer do documentário, não sabia exatamente do que se tratava,
me acabei de chorar! O Luís se emocionou bastante na parte que mostra
os primeiros cuidados com os bebês das cesarianas não humanizadas.
Tudo aquilo que ele havia presenciado com os meninos de tirar
imediatamente da mãe para medir, pesar, aplicar colírio nos olhos, aspirar,
deixar com frio, sozinho, chorando muito, etc. e que sempre o fizeram

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 12

acreditar que era normal na verdade não era! E caiu como uma bomba!
Descobrimos naquele dia que existe um sistema de cesarianas em nosso
país e que nós fomos vítimas por duas vezes. Não como uma violência
obstétrica descarada, mas como algo sutil, uma violência camuflada por
trás de uma gentileza. Decisão tomada! Agora sim vamos estudar e correr
atrás daquilo que sempre esteve presente em meu coração de alguma
forma, mas que agora eu estava podendo entender e alcançar.
No dia seguinte mandei uma mensagem para o Philippe para agendar
uma consulta. Como só tinha vaga no consultório na outra semana, não
quis esperar e optei por uma consulta domiciliar. Essa consulta aconteceu
no dia 14/06/2018. E que consulta! Foram quase 3 horas de conversa. Na
verdade o Philippe me escutou por mais de uma hora, momento em que
parecia que eu estava conseguindo colocar pra fora tudo o que ficou
guardado nesses últimos anos. Falei, falei, abri meu coração e me
emocionei. Ele parecia somente ouvidos. Meses depois, após o parto, ele
me confessou que aquela consulta o emocionou bastante. Mas realmente
eu coloquei muitos sentimentos juntos ali. A segunda parte da consulta foi
de empoderamento. Baseado em evidências científicas ele foi derrotando
todos os mitos, um a um, sobre o parto normal e, principalmente sobre
parto normal depois de duas cesarianas. Era o que a gente precisava!
Confiança! E eu precisava que o Luís embarcasse nessa comigo, não só
para me apoiar, mas, afinal de contas estavam em jogo a esposa dele, o
filho dele, a mãe do filho e a mãe dos outros dois. Era o meu sonho, o meu
corpo, ok. Sabia que ele me respeitaria, mas precisava mais que isso!
Precisava que ele quisesse também.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 13

E assim foi. Para não passar em branco, mandei uma mensagem de
agradecimento para a secretária da antiga obstetra, sem entrar muito em
detalhes. Meu coração pediu.
Naquele momento tinha realmente mudado de obstetra. E estava
muito feliz por isso! Agora sim! Tinha tranquilidade que a cesariana
somente viria se tivesse real indicação para ela. As minhas chances de um
parto normal agora eram enormes!
A doula que tinha vindo a minha casa foi muito carinhosa, mas acabei
optando por ficar com as doulas do Fardo de Ternura, indicação também
da Natália e que o Philippe também falou muito bem do trabalho delas.
Que maravilha que foi esse grupo. Foram consultas individuais e algumas
consultas coletivas. Havia encontrado a minha tribo! Nem acreditava!
Pessoas que falavam a mesma língua que eu, que acreditavam nos mesmos
princípios que eu, que sintonia! E que delícia dividir com as demais
gestantes esse momento tão incrível! Nas rodas coletivas, muito respeito e
muita empatia! A hora passava que eu nem via! Quanta informação eu
adquiri, quanta ajuda, quanto apoio, quanto carinho! A força que existia
dentro de mim foi crescendo de uma tal maneira que eu nem lembrava
mais que tinha duas cesarianas anteriores. Eu não enxergava na minha
frente outra possibilidade que não o parto normal. Eu tinha desejo pelas
dores do parto!
Das doulas do coletivo Fardo de Ternura, quem me acompanhou mais
de perto foi a Camille, mas a Fernanda e a Tamara sempre estiveram
presentes de alguma forma. A Camille, com seu jeitinho doce, fazia as
consultas individuais e me acompanharia no meu parto. A Fernanda e a
Tamara eu encontrava nas consultas coletivas e a Fernanda ainda me
mandou algumas mensagens de coragem e carinho! Todas foram incríveis!

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 14

Ninguém me segurava mais! Missão dada (por mim mesma) teria que
ser missão cumprida! rsrs Minha vida foi marcada pela determinação.
Quando quero algo, sai da frente! Rsrs Sigo naquilo até conseguir! O
nascimento do meu filho não poderia ser diferente!
Nessas últimas semanas que antecederam o grande dia eu não tinha
outro assunto. Queria conversar a todo tempo sobre partos humanizados e
o sistema de cesarianas no Brasil. Estava muito empoderada mesmo. E
acima de tudo, muito, mas muito feliz!
Eu me preparei psicologicamente para parir com 41 semanas. Na
minha cabeça o Rafael não viria antes, já que o Luís Henrique que foi
fruto de uma cesariana eletiva nasceu de 40 semanas e 1 dia. Preferia
pensar que demoraria um pouco mais, do que imaginar 38 ou 39 semanas
e viver longas duas ou três semanas de angústia e ansiedade. Foi uma
espécie de proteção. Para fortalecer esse meu pensamento, os bebês do
grupo do Fardo estavam todos nascendo com aproximadamente 41
semanas, logo eu já estava encarando esse tempo com muita, mas muita
tranquilidade mesmo.
Bom, EU estava encarando com naturalidade. E o Luís também.
Meus pais também estavam tranquilos. Mas os amigos e as pessoas que
fazem parte do meu dia-a-dia eu tinha a sensação que estavam bastante
preocupados depois que eu passei das 40 semanas. Mais uma vez, friso a
importância do Philippe e das doulas do Fardo que passavam tanta
informação de qualidade e confiança que eu conseguia filtrar muito bem
essa ansiedade alheia. Às vezes uma ou outra pessoa me deixava um pouco
angustiada, mas eu conseguia ter um entendimento sobre aquilo e logo
passava e seguia com a minha vida absolutamente normal.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 15

O parto do Rafa estava muito perto! Sentia isso! Na sexta-feira, dia
31/08 fiz uma sessão de acupuntura para tentar ajudar a entrar em
trabalho de parto. Eu já estava com 40 semanas e 4 dias de gestação. No
sábado pela manhã fomos levar os meninos em um festival de futebol no
Rio Cricket. Tudo normal. Até que por volta das 20:30h, em casa, quando
fui a sala falar algo com Luís, senti a primeira contração com um pingo de
dor e o tampão mucoso desceu! Que alegria! Sabia que o trabalho de
parto ainda poderia demorar a iniciar, mas isso já era um sinal de que nos
próximos dias ele aconteceria! Já andava sentindo muitas contrações de
treinamento. Essa foi a primeira que veio acompanhada por um
pouquinho de dor. Mandei uma mensagem para o Philippe e ele me disse
que ainda poderia demorar. Eu estava tranquila com relação a isso. Mas
algo me dizia que não demoraria muito.
Essa madrugada de sábado para domingo veio acompanhada de
muitas contrações, já com dor. Eu tinha contração a cada 15 minutos mais
ou menos. Não dormi nada. Estava sentindo dor, mas ao mesmo tempo
muito feliz que a grande hora estava chegando. Na minha cabeça eu tinha
certeza que o Rafael nasceria no domingo. Consegui levar a madrugada
sem acordar o Luís. Às 6 horas da manhã Dudu acordou querendo
mamar. Ui! A ocitocina liberada em função da amamentação me fez ter
três dolorosas contrações no período de 15 minutos. Acordei o Luís e falei:
“É hoje! Estou com muitas contrações!” Tudo era muito novo pra mim. Eu
nunca tinha vivido aquilo! Preparamos os avós para virem a nossa casa por
conta dos meninos e passamos o dia em casa aguardando a evolução do
trabalho de parto, mas para a minha surpresa não houve evolução, ao
contrário, na tarde de domingo as contrações foram espaçando tanto que
chegaram a sumir. Eram pródomos. Tudo bem! Vamos seguindo.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 16

Passamos um dia muito agradável em casa. Lá pelas 21h, depois que os
avós já tinham ido embora e os meninos dormiram, as contrações de uma
hora para a outra voltaram com tudo. Estavam a cada 12 minutos mais ou
menos, mas a intensidade da dor aumentou bastante. Falei com Luís e ele
disse: “Vamos descansar um pouco então.” Na mesma hora eu falei a ele:
“Hoje não vamos dormir.” Rsrs Tinha certeza que seria uma longa
madrugada. Parecia que o “carro” do trabalho de parto estava realmente
ligando. E assim foi a madrugada. A cada 8 minutos uma contração
acompanhada de muito dor! Quando foi 1h o Luís ligou para o Philippe
avisando que eu estava com contrações ritmadas e já com muita dor. O
Philippe perguntou o intervalo e explicou que o trabalho de parto
efetivamente se iniciaria quando eu tivesse com uma contração a cada 5
minutos. Pediu que a gente entrasse em contato com a Camille para vir a
nossa casa. Bem, conversamos e avaliamos tentar esperar mais um pouco
para evitar que a Camille saísse de casa de madrugada e também
preocupados com os meninos. Eu estava com uma preocupação enorme
em não alterar em nada a rotina deles. Não queria que eles percebessem
que a mãe estava sentindo dor. O Dudu em especial é muito apegado a
mim. Se ele percebesse algo diferente no ar poderia dificultar as coisas. O
Ique, muito carinhoso, ia ficar muito preocupado. Assim, não ligamos pra
Camille e fomos levando. As contrações doíam muito, mas o intervalo de
tempo não diminuía. Apenas por um período tivemos 3 contrações a cada
4 minutos. Mas não evoluiu. O Philippe, muito atencioso, ligou as 3:30h
para saber se estava tudo bem. Explicamos que o quadro era o mesmo e
que optamos por “segurar a onda” mais um pouco. E mais uma vez “o
carro” desacelerou. Por volta das 4:30h tive um espaço de 30 minutos sem

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 17

contração e depois 1 hora sem contração. Foi a salvação, pois permitiu um
pequeno descanso.
Às 6h os meninos apareceram no nosso quarto de mãos dadas, super
felizes, dando bom dia. Eu dei um pulo da cama! Não poderia imaginar o
Dudu mamando e eu tendo contrações mais fortes que as do dia anterior.
E quando eu estou deitada é um “prato cheio” para ele pedir para mamar.
Levantamos todos e as contrações voltaram para o patamar de 10 em 10
minutos, acompanhadas de muita dor. Hora de ligar pra Camille!
Também estávamos preocupados com o trânsito de segunda-feira.
Ligamos e ela disse que viria pra nossa casa. Também ligamos para a
minha mãe para vir ajudar com os meninos. Mariana (babá) chegaria as
8h e eles teriam natação às 9h, seguindo direto para a escola. Mesmo com
as contrações eu ainda consegui dar os remédios do Luís Henrique, alterar
o uniforme da escola da mochila da natação, pois o dia amanheceu frio. Às
7h a Camille chegou. Eu já estava com contrações a cada 6/7 minutos e a
cada contração ia na área externa sentir a dor para que os meninos não
percebessem nada. Quando deu 7:30h da manhã eu já não conseguia fazer
mais nada. As contrações já entraram no patamar de 5 em 5 minutos e eu
sentia muita dor! Não conseguia nem ir a área externa sentir a contração.
Fiquei sentada na cadeira da cozinha, segurando pra dentro toda aquela
dor para que os meninos não percebessem nada. Naquele momento
começava efetivamente o trabalho de parto!
Eu já não sorria mais entre as contrações e rezava para a Mariana
chegar logo para que ela e minha mãe levassem os meninos para a
natação, ainda que antes da hora. Meu pai também estava na nossa casa.
Eu estava com uma preocupação louca com os meninos! Por volta das
8:20h eles saíram de casa felizes! Nem me despedi deles. Eles estavam tão

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 18

bem que eu pedi que os levassem. Não queria correr o risco deles
aparecerem na minha frente bem na hora de uma contração. Seria
impossível segurar a dor.
Assim que todos saíram, ficamos eu, Luís e Camille. Agora a gente
poderia dar a devida atenção ao trabalho de parto. Eu já pedia pra ir pro
hospital, pois a dor estava muito intensa! A Camille sugeriu um banho
quente e eu topei. Quando cheguei no banheiro, eu desabei de chorar!
Mas chorei igual a uma criança mesmo! Parecia que tudo o que eu estava
travando por conta dos meninos, agora eu tinha colocado pra fora!
Acredito que eu tenha ficado abraçada ao Luís chorando por uns 5 a 10
minutos. Mais calma, entramos na água quente. Que alívio! Essa água
quente faz milagre! Por uns minutos parei de reclamar, de chorar e fiquei
bem mais calma. A cada contração depositava todo o peso no Luís. A
sensação da contração era como se o meu corpo fosse um espremedor de
frutas. Rsrs Uma super cólica intensa que me espremia na frente e nas
costas. Eu não conseguia vocalizar, apesar da indicação de vocalização
como forma de aliviar a dor da contração. Eu apenas me travava e
segurava a respiração. Luís perguntou se eu queria tomar um banho, eu
disse que sim e ele me deu um banho. Depois de uns 40 a 60 minutos, mais
aliviada, eu quis sair do banho, pois já estava sem posição em pé.
Do banho, deitei na cama pelada mesmo e me deu ânsia de vômito,
mas eu não consegui vomitar. A vontade passou e eu fiquei deitada, de
olhos fechados, sem reclamar, apenas me concentrando naquelas dores que
vinham em forma de ondas. Naquele momento eu pedia fortemente pelo
meu médico e pedia para ir para o hospital, pois já estava no limite da dor.
Na minha cabeça o Rafael estava prestes a nascer.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 19

Camille, sempre em contato com o Philippe, me sugeriu que ele viesse
a nossa casa para não precisarmos ir ao hospital antes da hora. Ela não me
disse isso, mas parece que eles sabiam que o nascimento ainda poderia
demorar um pouco e, quanto menos tempo no hospital, melhor. Eu topei a
vinda do Philippe! Eu queria ele por perto de qualquer jeito! O Philippe
estava vindo do Rio, mas tive a sensação que ele chegou bem rápido. Acho
que naquele momento eu já não estava mais com tanta noção de tempo.
Ouvia a Camille e o Luís conversando ao fundo, mas não assimilava muito
bem. Ouvi o Luís conversando no interfone com a Kátia da portaria
avisando que o meu médico estava chegando e que iria parar na nossa
vaga de garagem.
O Philippe chegou de forma bem silenciosa, pois não o ouvi entrar.
Apenas senti sua mão acolhedora encostando na minha perna, como se
falasse: “Eu estou aqui. Você está bem?” Eu que estava quietinha desde
que saí do banho, na mesma hora eu já verbalizei dizendo que não estava
aguentando mais e que estava com muita dor. Ele me perguntou se eu
queria fazer um exame de toque. Diferenças do parto humanizado já
começam por aí. Ele não diz que vai fazer um exame de toque. Ele me
pergunta se eu gostaria de um exame de toque. Eu topei na mesma hora.
Eu precisava saber em que momento do trabalho de parto eu estava. E de
repente veio a resposta da dilatação: “4 cm”. Nossa, a minha reação
chegou a ser engraçada! Todos riram! “4??? Puta que pariu! Preciso da
analgesia agora!” Eu que não sou de falar palavrão, mandei esse bem alto!
Kkkkk Estava complicado pra mim. Sentia que estava no meu limite da
dor, mas ainda estava com 4 cm de dilatação. Precisava chegar a 10 cm!
No meu plano de parto estava bem claro de que eu tinha um desejo muito
grande de que o parto acontecesse de forma bem natural, sem analgesia. E

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 20

pedia que não ficassem me oferecendo. Eu avisaria caso estivesse no meu
limite da dor. Apesar de já ter avisado, tanto o Philippe quanto o Luís e a
Camille sabiam do meu grande desejo de que tudo fluísse sem analgesia e
durante todo o trabalho de parto eles foram tentando “ganhar tempo”
comigo para evitar a analgesia. De qualquer forma naquele momento o
Philippe disse que tinha suspeita de bolsa rota e que teríamos que ir para o
hospital para ministrar antibiótico, pois o meu exame SWAB perineal
havia dado positivo e por precaução existia esse protocolo médico. Eu já
estava suuuuuper pedindo hospital, com muita dor.
Esse momento de saída para o hospital foi mega doloroso! Eu mal
conseguia andar. Luís pegou um vestido qualquer pra mim. A verdade é
que a essa altura da gestação (41 semanas) praticamente nenhuma roupa
mais cabia em mim. Minha barriga estava enorme! Eu fiquei pedindo para
acelerar, fiquei chamando o elevador, ansiosa pra sair. A verdade é que eu
não estava me aguentando em pé. Quando o elevador chegou na garagem
veio uma contração tão forte que eu quase que não consegui sair do
elevador. O trajeto no carro foi terrível! A cada buraco que o carro passava
uma contração, então tive muitas contrações até lá. O hospital é perto de
casa, mas o trânsito não estava ajudando muito.
Quando chegamos ao hospital logo apareceu um homem com uma
cadeira de rodas pra mim. Eu mal conseguia abrir os olhos, mas vi a Érica
fotógrafa já nos esperando. Pra falar a verdade acho que foi o único
momento em que percebi a presença dela. Que mulher fofa e incrível! Ela
é uma profissional tão preparada para parto normal que ela some no
parto. Super discreta! Acho que só ouvi a voz dela quando ela estava indo
embora e foi se despedir. Uma querida!

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 21

Foi maravilhoso chegar ao hospital junto com o Philippe, pois nenhum
médico do hospital tocou em mim ou fez sequer perguntas. Ele assumiu
tudo. Também não precisei ficar esperando por atendimento. Aguardamos
dentro da triagem enquanto acertavam a minha internação. Lembro do
Philippe aferindo a minha pressão e estava normal (baixinha como
sempre). Naquele momento o que me ajudou muito foi quando o Philippe
acertou minha respiração. Eu estava com a respiração muito curta e ele me
sugeriu respirações mais longas na hora da contração. Isso me ajudou
muito! Fiquei sentada na cadeira de rodas com a cabeça encostada no Luís
e de olhos fechados. Foi a forma que encontrei de aliviar as intensas dores.
Assim que subimos a Camille já foi logo enchendo a banheira com
água bem quente. Assim que eu entrei na banheira, meu Deus! Que alívio!
Mais uma vez a água quente me salvando! Mas dessa vez salvou demais!
Até aquele momento eu tinha certeza que precisaria da analgesia, mas
ganhei vida na banheira! A partir desse momento os detalhes do trabalho
de parto começaram a sumir das minha lembranças. Acho que ali iniciava
a famosa “partolândia”.
Lembro que nesta hora eu dei uma boa sossegada. Fiquei muito
concentrada nas dores. Não sei mais de quanto em quanto tempo eu tinha
contrações, imagino que a cada 3 minutos. Depois de um certo tempo ali,
talvez 1 hora, eu voltei a reclamar muito de dor. Eu realmente não estava
aguentando mais aquela dor dilacerante. Talvez eu tivesse subestimado um
pouco as dores do parto. Lembro que estavam ao meu lado calmamente
Luis e Camille, mas não me lembro bem se estávamos conversando. Até
que eu pedi pra chamar o Philippe. Eu precisava saber dele quanto tempo
mais eu ficaria sofrendo daquele jeito. Todos riram quando eu falei:
“Philippe, não estou aguentando mais. Quais são os próximos passos? Eu

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 22

preciso de pre-vi-si-bi-li-da-de!!” Rsrsrsr Deve ter sido muito engraçado
mesmo! Como poderia ter previsibilidade? Ele me disse que as contrações
precisariam ficar mais longas. Neste momento elas duravam de 40 a 50
segundos e precisariam chegar a 1 minuto. Eu perguntei a ele se no
expulsivo eu sentiria menos dor. Lembro claramente dele me respondendo:
“Eu nunca te falei isso.” rsrsrs Realmente eu não sabia mais o que esperar
de mim.
Como sou e sempre fui muito focada, assim que o Philippe saiu da
sala eu comecei a pedir para a Camille cronometrar as minhas contrações.
Eu realmente precisava avançar! Já estava fritando naquela banheira e
meus dedos já estavam dormentes. Essa hora parece ter sido bem
engraçada também, pois eu falava “pode começar a contar” e quando
terminava lembro dela me respondendo “55 segundos”. E na mesma hora
retruquei: “Não é possível! Foi mais de 1 minuto!” Hahahaha Lembro que
a Camille cronometrou pra mim umas duas ou três contrações e depois
precisou sair da sala. Eu logo virei pro Luís: “Amor, cronometra e por favor
me fala a verdade!” Como se ela não estivesse falando a verdade… Rsrsrs
Eu realmente já estava fora de mim. A essa altura eu estava um pouco
brava. Kkkkk Lembro que o Luís cronometrou umas duas ou três vezes
também e a evolução foi muito rápida a partir daí. Eu já comecei a falar
assim: “Nem precisa cronometrar mais! Já está contração única! 5
minutos!” A dor veio com tudo! Parecia que eu não tinha mais intervalo de
descanso entre as contrações. Pedi novamente para chamar o Philippe.
Quando o Philippe chegou eu disse novamente a ele que não estava
aguentando mais e ele me perguntou se eu queria fazer um novo exame de
toque (o primeiro no hospital). Eu disse que sim! Mais uma vez precisava
saber aonde eu estava. Ele fez o toque e eu estava com 7 cm de dilatação.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 23

Meu Deus! Avançou, mas ainda falta. Nem sabia o que pensar mais. Ele
me sugeriu mudar de posição e eu fiquei em quatro apoios na banheira.
Philippe me deu a mão e eu lembro que tive um momento em que deixei a
braveza de lado e pedi a ele “Por favor, fica aqui comigo?!” Ele disse que
ficaria, mas que iria lá fora rapidinho ligar para o pediatra. Opa! Ligar
para o pediatra?! Lembro que gostei de ouvir isso. Bom, se vai ligar para o
pediatra é porque está chegando a hora.
Acredito que o Philippe não tenha demorado muito, pois lembro dele
logo comigo novamente. Eu pedia ao Luís água gelada no rosto e pra
beber. Eu já estava fritando na banheira. Ele também ligou a torneira fria
na banheira para melhorar a temperatura da água. Imagino que já seria
tipo 13h e eu estava na banheira desde às 10:30h/11h mais ou menos.
Naquele momento eu acho que eu não pedia mais analgesia, apenas
dizia que não estava aguentando mais. O parto precisava acabar. Eu
comecei a tentar fazer força ao final das contrações para tentar acelerar o
parto, ainda que essa vontade de fazer força não fosse ainda muito real.
Lembro que confessei isso ao Philippe e ele falou: “Luiza, deixa a natureza
agir no seu corpo. Não adianta fazer força se não tem vontade.” Mas de
repente eu achava que estava forçando, mas no fundo essa vontade estava
realmente começando. Talvez estivesse iniciando o expulsivo. Tenho uma
leve sensação de sentir a cabeça do Rafael descer. Lembro do Luís me
contando que eu estava fazendo uma maratona e que faltavam apenas 2
Km! Foi muito bom ouvir isso! Foco, força e vamos lá!
Como eu estava em quatro apoios, fiquei boa parte com a cabeça
baixa me concentrando nas contrações e nas leves forças que eu já estava
começando a fazer ao final de cada contração. Depois do parto, o Philippe,
o Luís e a Camille me contaram que nesse hora o anestesista apareceu na

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 24

sala e que os três fizeram rapidamente sinal para ele ir embora sem que eu
o visse! Rsrsrs A verdade é que a essa altura eu não estava pedindo mais
pela analgesia, eu dizia que não estava aguentando mais! Mas eles falaram
que o anestesista entrou em um momento em que eu estava calma e de
cabeça baixa e, mais uma vez, tentaram ir “ganhando tempo” comigo! E
como eu agradeço! Aí está a diferença da equipe! Acredito que a maioria
já teria feito a analgesia ou até mesmo me encaminhado para cesariana.
Nos momentos em que eu mesma desisti de mim, o Philippe, a Camille e o
Luís não desistiram e continuaram me incentivando! Isso é incrível!
Neste momento eu pedi para sair da banheira. Já estava com muito
calor, com os dedos formigando e sem posição. Lembra da maratona?
Aqui o Luís me disse que faltava só 1 Km! Ganhei fôlego! Deitei na maca,
mas a posição não foi boa, não me senti confortável e o Philippe também
me disse que era uma posição que não me ajudaria muito. Pedi para sentar
na banqueta e ele disse que tudo bem, mas que eu não poderia ficar muito
tempo ali.
Tenho a sensação de que ali o trabalho de parto avançou
rapidamente. As contrações estavam completamente dilacerantes. Eu
estava completamente fora do ar. Já estava me sentindo um bicho. Rsrsrs.
Falei um monte de bobagens, mas que todos sabiam que eu não estava no
meu prumo. Disse que não aguentava mais, precisava saber quantas
contrações faltavam, que eles não estavam entendendo a minha dor, que
não estavam me respeitando, pedia ajuda do Philippe para tirar o bebê, e
por aí vai… Kkkkkk No final ainda gritei: “Este parto não está
humanizado!!!” hahahaha
As contrações estavam praticamente sem intervalo. O Philippe me
sugeriu chegar o corpo um pouco pra trás. Eu não quis. E depois quis.

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 25

Rsrs A cada contração eu era estrangulada por dentro e jogava o meu
corpo com toda força pra trás. O Luís estava atrás de mim, me amparando
e me segurando com toda a força. Neste parto ele teve um trabalho
bastante ativo! Rsrsrs Deve ter ficado dolorido!
Eu senti a necessidade de puxar alguma coisa e pedi a Camille um
lençol, uma toalha, qualquer coisa. Ela rapidamente pegou seu rebozo e
isso me ajudou muito! Em um dos meus pedidos de ajuda ao Philippe
lembro dele falando: “Eu vou te ajudar! Coloca seus pés um em cada
perna minha.” Assim fiquei até o final! A cada contração eu fazia uma
força absurda pra trás contra o Luís, puxava o rebozo da Camille e
empurrava com os pés as pernas do Philippe! Que equipe maravilhosa!!!!
Philippe e Camile sentados no chão do hospital. Ambiente a meia luz.
Philippe com um espelhinho (lembro dele buscando na bolsa dizendo que
era novo e que havia ganho de presente da Fernanda – doula também do
Fardo de Ternura) e com uma lanterninha eu acho.
Comecei a sentir uma enorme vontade de fazer força! Pedi mais uma
vez uma ajuda desesperada do Philippe e me lembro dele falando: “Espera
aí. Deixa eu ver se o bebê está chegando.” E não é que ele falou: “Ih! Está
aqui oh! Coloca a sua mão que você vai sentir a cabecinha dele!” Coloquei
o dedo no canal vaginal e senti a cabecinha dele bem molinha! Mas estava
muito perto mesmo! A cabecinha dele estava logo ali! O parto estava
acabando e eu resolvi me concentrar com todas as minhas forças! Seria
tipo os metros finais da maratona! Eu que não vocalizei durante todo o
trabalho de parto, gritei com todas as minhas forças nas últimas
contrações! A contração já tinha até passado, mas enquanto eu tivesse ar
eu estaria gritando e fazendo força. Depois soube pelos familiares que
estavam lá fora que o hospital inteiro deve ter escutado os meus gritos!

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 26

Kkkkkk E depois lembro do Philippe falando pra mim assim: “Aquele grito
foi sensacional!!!” Hahahah
Bom, o meu objetivo naquele momento era ter o menor número de
contrações possíveis até o parto acabar. Eram elas que me matavam de
dor! Confesso que sentir o bebê passar é até gostoso! Sentir seu filho
nascer! Nossa! Não tenho palavras! Depois que eu senti a cabecinha do
Rafa com o meu dedo eu pensei é agora! A contração veio e eu fiz a maior
força do universo! Mas gritei muito forte mesmo! Nesta contração senti o
início da queimação da fase final: o círculo de fogo!
Tinha certeza que o bebê estava nascendo! Vamos com tudo! Reta
final! Veio outra contração e mais uma força e grito nível máximo. Diz o
Luís que nesse momento o Philippe disse que o cabelinho apareceu e que
eu coloquei a mão. Confesso que não lembro. Estava muito focada na dor
e no nascimento. Outra contração e essa sim foi força total! Nem sei de
onde tirei tanta força! Senti a queimação mais forte e senti a cabeça do
Rafa sair! Philippe deu alguma analisada e disse que o bebê estava soltinho
e que nasceria na próxima contração! Ela veio e no meio da força total o
corpinho do Rafa escorregou de dentro de mim! Ele nasceu!!! Eu
consegui!!! Mas não consegui comemorar. Confesso que ainda estava
preocupada com as contrações para a saída da placenta. Eu não aguentava
mais nenhuma contração! Sério mesmo! Lembro que perguntei para a
Raquel, médica auxiliar do Philippe, que esteve presente no expulsivo e
estava na minha frente naquela hora: “A contração para a saída da
placenta vai doer assim também?” Era uma pergunta de uma pessoa
desesperada. Rsrsrs Lembro dela me respondendo que não iria doer tanto,
para eu ficar calma! E foi exatamente isso! Na contração seguinte (bem
mais leve por sinal) a placenta saiu e o parto teria terminado! Eu,

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 27

desesperada claro, só perguntava: “Acabou o parto? Acabou? Não terei
novas contrações?” Tadinha de mim rsrsrs. As dores não foram fáceis. E eu
segurava o Rafa, todos falavam olha ele aí, e eu não conseguia nem olhar,
só abraçar! Eu estava completamente esgotada! Havia me doado inteira!
Muito mais que qualquer prova de triathlon ou maratona aquática da vida
inteira!
E o parto teria terminado! Todos felizes, ocitocinados e eu ainda
voltando ao meu normal. Ainda não estava conseguindo acreditar que
toda aquela dor havia passado, que o meu filho havia nascido (e
completamente cheio de saúde) e que eu tinha conseguido o meu tão
sonhado parto normal, depois de duas cesarianas!
Eles me colocaram na maca para deitar e descansar um pouco e
também para o Philippe avaliar as possíveis lacerações, lacerações estas
que em momento nenhum em me importei com elas! Pra mim elas faziam
parte do processo natural de parir! E o Philippe já havia me esclarecido
que se elas acontecessem eu tomaria uns pontinhos e estaria tudo certo.
Lembro do Philippe me avisando que aplicaria 10 unidades de
ocitocina intramuscular e eu nem liguei para aquela agulha! “Pode aplicar!
Isso não é nada perto das contrações!” Rsrsrs Eu parecia um pouco
traumatizada, mas posso dizer que é a dor mais sem vergonha do mundo!
Em poucos minutos eu já estava tão realizada, mas tão realizada que já
começava a me esquecer delas! Em 24 horas já falava delas dando risadas!
E é claro, faria tuuuuuuuuuuuuudo de novo!
Assim que o Rafa nasceu, ele veio para o meu colo. Na maca ficou no
meu colo por quase 2 horas e mamou com uma linda pega por 1 hora!
Nossa “hora dourada” foi lindamente respeitada. Enquanto o Philippe
suturava as pequenas lacerações, o Rafa estava ali comigo! Todo o meu

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 28

plano de parto foi respeitado! O parto foi um verdadeiro sucesso, banhado
de muito amor, parceria, companheirismo, respeito e entrega por parte de
todos os envolvidos! Depois o Rafa foi levado pelo pediatra e o Luís para
os cuidados inicias (apenas os essenciais, como medições e vitamina K) e
logo nós nos encontraríamos no quarto. Eu ainda fiquei na sala de parto
por um tempinho com o Philippe e a Camille e depois fui para o quarto.
Eu estava me sentindo muito orgulhosa! Estava muito cansada
também! Não conseguia levantar um dedo, que por sinal ainda estavam
dormentes. Rsrsrs Os meninos chegaram para conhecer o irmão, a Érica
fotógrafa fez os registros e foi lindo demais!!!! Nossa família está completa!!
Parece que assim que acabou o parto, enquanto eu estava na maca, eu
dei um depoimento colocando pra fora o que estava engasgado. Eu não
me lembro muito bem o que eu falei, mas soube que foi bonito. Lembro
que todos estavam em silêncio ao redor da maca me ouvindo e eu nem
percebi que estava sendo filmada, até que no final alguém que estava na
minha frente (acho que foi a Raquel) fez um sinal com os olhos me
mostrando que estava sendo filmada. E que bom! Estou ansiosa para ver
esse depoimento!
Nunca na vida vou me esquecer desse dia! Realmente parir é
transformador demais! É um divisor de águas! Passar por essa experiência
foi muito enriquecedora pra mim! Viver toda aquela explosão de
hormônios que a natureza nos oferece (e não a medicina) é incrível demais,
coisa de Deus mesmo! Eu realmente não poderia passar dessa existência
sem ter vivido tudo isso! E provar pra mim mesma que eu era capaz foi
muito importante! Tinha muito esse débito comigo: “Por que eu não
poderia?”. Sim, eu posso sim! E é nessas horas que eu digo que a minha
equipe fez toda a diferença do mundo!

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 29

Philippe: Apesar dele falar que não fez nada, que eu fiz tudo e etc. ele
fez sim! Ele me permitiu viver isso! Ele me empoderou desde o nosso
primeiro contato pelo Whatsapp! Ele veio a nossa casa e fez uma consulta
de umas 3 horas me ouvindo, me sentindo chorar, desabafar e me
esclarecendo, baseado em evidências científicas e não achismos, que eu
poderia sim ter um parto natural depois de duas cesarianas e que isso era
seguro! Os riscos eram mapeados. A cesariana tem muito mais riscos. Ele
se preocupou comigo durante a gestação. Entrava em contato com as
doulas, pedia para trabalhar comigo esse ou outro ponto. Durante o
trabalho de parto veio a minha casa, me observou, foi meu amigo, esteve
ao meu lado, me deu as mãos e mesmo eu falando mil vezes que não
aguentava mais, continuou confiando em mim! Como posso não amar?
Meu sentimento de gratidão por ele é incalculável! Que pessoa incrível!
Camille: Que doce de mulher! A sensação é que nos conhecemos há
muito tempo! Desde a primeira consulta na minha casa abraçou a minha
causa com unhas e dentes! Através das consultas individuais e coletivas,
pelo grupo Fardo de Ternura, me proporcionou muita informação de
qualidade, o que me ajudou muito a estar a todo tempo firme nesse
processo. Acompanhar as demais gestantes do grupo, através das consultas
coletivas e também através do grupo do WhatsApp também ajudou muito!
As gestantes pariam com 41 semanas ou mais e estava tudo ótimo! Isso me
ajudou muito depois que completei 40 semanas e recebia intermináveis
mensagens para saber se o bebê já tinha nascido. Eu me mantia tranquila,
deixando a ansiedade de lado, pois estava tudo bem, eu estava sendo muito
bem acompanhada pelo meu médico e aquilo era normal! Como é bom
encontrar a sua tribo! A Camille foi incrível também durante o parto!

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 30

Esteve a todo tempo ao meu lado, foi minha amiga e muito humana! Vai
ficar para sempre guardada em minha memória e meu coração!
Luís: Que parceiro! Desde o meu primeiro movimento de mudança
esteve aberto para conversar e entender o que estava acontecendo comigo.
Inicialmente parto de segurança pra ele seria repetir os partos anteriores,
tendo em vista que “em tese” teriam dado certo. Essa era a referência que
ele tinha. Fui apresentando a ele as minhas novas intenções e ele nunca se
fechou. O grande marco foi naquela semana em que fiz o primeiro contato
com o Philippe. Assistimos juntos o documentário “O Renascimento do
Parto” e foi incrível! Ali ele realmente percebeu o sistema de cesarianas
que existe em nosso país e foi apresentado à humanização do parto para a
mulher e para o bebê. Eu chorei muito com esse documentário e ali tive a
certeza de que não poderia passar dessa existência sem passar pela incrível
experiência de parir um filho! E parir com respeito! O Luís abriu a alma
para receber todas as informações e na primeira consulta com o Philippe
na nossa casa ele sanou todas as dúvidas e se empoderou junto a mim de
que aquilo era o melhor para nós. Passou a pesquisar, assistir vídeos de
partos com mais naturalidade, passou a encarar o parto como um
fenômeno da natureza mesmo! Debatia o assunto com amigos com
propriedade, participou de consultas coletivas comigo no Fardo de Ternura
e esperou com tranquilidade a chegada do nosso Rafael, além de me
proporcionar paz e muita, mas muita força no grande dia! Ele realmente
participou ativamente do parto! Esteve ao meu lado por todo o tempo! Sou
só gratidão! Posteriormente me confessou que no decorrer dessa
caminhada também foi percebendo que não poderia passar dessa
existência sem viver essa experiência, frase em que eu constantemente
falava. Te amo amor! Você foi sensacional!

RELATO DO PARTO DO RAFAEL 31

Os dois dias de internação no hospital foram de completa euforia por
minha parte! Eu estava completamente embebedada de hormônios de
amor! Completamente realizada! Na verdade eu mal conseguia acreditar
no que tinha acontecido! Foi fantástico demais!
Chegamos em casa no dia 05/09, quarta-feira, e a vida precisaria
voltar ao normal, no entanto, eu comecei a sentir uma saudade sem fim do
dia do parto! Aquelas dores dilacerantes já estavam completamente
esquecidas por mim! Os dias foram passando e o sentimento estranho de
“mais um dia que se afasta do nosso dia”. Sentia também uma saudade
muito grande do Philippe e da Camille e queria que o Luís estivesse
sempre por perto. Era uma vontade muito grande de parar o tempo
mesmo. Ao mesmo tempo toda aquela intensidade vivida me trouxe
muitos questionamentos sobre o meu futuro profissional. Já estava mais
que consolidado que a maternidade me apresentou até a minha vocação
profissional e isso voltava a me incomodar. Não saíam da minha cabeça
planos para o futuro! No sábado e no domingo a melancolia do baby blues
veio com tudo! Uma enorme vontade de chorar sem motivos. Foram dois
dias bem difíceis, mas que foram superados! Ah o puerpério…. Tão
intenso, tão mágico, tão incrível! Como eu amo ser mãe! Como eu amo ser
mãe dos meus três meninos! E agora fechando meu pacotinho de amor
com essa grande realização! Gratidão me define! Deus abençoe a minha
família! Tenho certeza que essa linda história ficará pra sempre guardada
em minha memória e meu coração, mas foi muito importante pra mim
deixar o registro. As palavras saíram com muita fluência e emoção. Estou
feliz por ter escrito.
Setembro/2018

Sobre o fardo

Fardo de Ternura

Nossa missão é prestar assistência integrada à mulher no processo de gestação, parto e pós parto, sendo suporte em sua busca pela gestação e maternidade respeitosas, com informação, acolhimento e apoio às suas escolha.

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